segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"Penso que a outra Qualidade de um Político é a Comunicação"


Arnaldo Andrade Ramos, 53 anos, natural de Sal-Rei, Ilha da Boavista. Licenciado em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa (ISCTE), instituição onde frequentou o mestrado em Estudos Africanos. Formação em Jornalismo (Instituto Internacional de Jornalismo de Berlim, 1976) e Diplomacia (Inst. Nacional de Administração, Oeiras, 1985).

Jornalista e Diretor do jornal cabo-verdiano “Voz di Povo”. Veio para Portugal em 1988 e foi presidente da Associação Cabo-verdiana durante dois mandatos, (1990-94) antes de ter entrado propriamente na política activa.

Foi eleito deputado em 1995 pelo círculo “Europa e R. M” nas listas do PAICV, foi reeleito nas legislativas de 2001 e 2006 pelo circulo de Tarrafal de Santiago.

Foi candidato das eleições autárquicas (Fevereiro de 2000) no Município do Tarrafal, e em 2001 foi nomeado Embaixador de cabo Verde em Paris, cargo em que se manteve até finais de 2002, altura em que recebeu um convite do 1º Ministro, José Maria Neves, para integrar o governo cabo-verdiano, passando a ser Ministro da Presidência do Conselho de Ministros.

Embaixador de Cabo Verde em Portugal (2006-2010), após 4 anos em Lisboa pediu a demissão para liderar a lista “Europa e resto do Mundo” do PAICV nas eleições legislativas de Fevereiro de 2011.

P1. Porque razão decidiu entrar na vida politica ativa, partidária?

R1. – Na verdade estou na política desde os 17 anos de idade, altura em que aderi ao PAIGC, Movimento de Libertação liderado por Amílcar Cabral que lutou pela independência de dois países: Guiné-Bissau e Cabo Verde. Na altura, regressei a Cabo Verde, depois de ter estado na Guiné, na União Soviética e na República Democrática Alemã e dediquei-me ao jornalismo, na então recentemente proclamada República de Cabo Verde. Estive sempre ligado à actividade política, embora só em 1995 me tenha apresentado a eleições e sido eleito.

2. Em termos políticos quais são as suas qualidades? O que é necessário para ser um bom politico?

R2. Penso que o político deve conhecer a matéria de sua especialidade. O conhecimento tem que ser efectivo. Só me candidatei a deputado pela emigração cabo-verdiana na Europa depois de ter sido presidente de uma associação de emigrantes em Portugal, de ter sido um dos criadores do Congresso de Quadros Cabo-verdianos da Diáspora, e de ter tido actividade pública com suficiente notoriedade, de ter um conhecimento aprofundado da matéria, das pessoas envolvidas, dos temas, das possibilidades e dos objectivos a atingir. Também já tinha sido (a associação) membro fundador da organização dos migrantes da União Europeia, por isso estava familiarizado com a temática, também no plano europeu. Um político tem que ser um gestor. Planificar, fixar objectivos, metas a atingir, determinar os recursos e apoios que precisa ter, decidir na hora certa e liderar o grupo ou os grupos de pessoas que têm de participar, pois ninguém constrói o mundo sozinho. Penso que a outra qualidade de um político é a comunicação. É preciso convencer as pessoas, a votar, a acompanhar, a apoiar e a defender determinados ideais. Sem isso, só resta o caminho da ditadura e de fazer à força, contra a opinião dos cidadãos. Um bom político tem de ter sentido de colectivo, saber que ele faz parte de uma orquestra. Só toca bem, se tudo estiver afinado pelo mesmo diapasão.

3. Em todo o mundo, é voz corrente que a política e a corrupção andam juntos na vida política. Como explica este fenómeno?

R3. A política lida a maior parte das vezes, com o poder. O poder de decidir sobre a utilização (bem ou mal) de recursos, que podem ser materiais e financeiros, ou apenas a capacidade de influenciar outros na decisão. O poder de decidir sobre a riqueza de um colectivo (qualquer, um associação, um partido, um município, um Estado, uma Federação de Estados, etc), é uma grande tentação (utilização para proveito próprio, dos seus familiares, ou grupo) e será sempre motivo de disputa. Os que não têm esse mesmo poder, querem-no também, para fazer exactamente a mesma coisa.

4. A população tem dos políticos a ideia de que prometem uma coisa e fazem outra. Na sua óptica, porquê?

R4. – A população não espera que o político venha prometer-lhe o “inferno”, pois nem votaria nele. Assim o jogo das expectativas está marcado desde o início: a população espera que o político lhe prometa o “céu e a glória”, para poder votar nele. O político sabe que é assim que ganha eleições, portanto promete. Mas não é tudo tão inocente assim, porque a população sabe distinguir os políticos, pois todos prometem, mas só alguns são escolhidos.

5. Para um candidato, a um qualquer cargo, o que vale uma eleição?

R5. Uma eleição representa muitas vezes uma grande quantidade de energia empregue para cumprir um ideal, que pode ser bom ou mau ideal. Mas para a pessoa o ideal é sempre bom. O ideal pode ser desenvolver, por exemplo o município do Tarrafal, porque acreditamos que tem um grande potencial e é possível fazer isso (ideal altruísta), mas também pode ser um ideal fazer com que o nosso grupo, o nosso partido seja o vencedor para que o adversário não ganhe e com isso nos afaste e marginalize (ideal mais egoísta). Uma eleição pede toneladas e toneladas de energia durante meses, e isso só é possível para um ser humano, se ele tiver uma grande motivação, isto é um ideal para cumprir. Doutro modo, cansava-se e desistia ao fim das primeiras semanas de actividade.

6. Os políticos durante as campanhas digladiam-se, insultam-se e não têm respeito pelos adversários. Como é que depois se ultrapassam essas fracturas?

R6. É de facto muito comum o insulto e a falta de consideração uns pelos outros. Normalmente isso acontece quando há muito insegurança de quais possam ser os resultados, ou quando se tem a certeza que o nosso adversário vai à frente. Por isso, a máxima de estratégia eleitoral “quem vai à frente não insulta”… A ideia é sempre desacreditar o adversário aos olhos dos eleitores, para que estes não votem nele. Nas sociedades altamente desenvolvidas e informadas o insulto dá mau resultado eleitoral. Porém em locais onde falta informação e esclarecimento é normal acontecer que a calúnia funcione. No parlamento cabo-verdiano antes havia alguma crispação logo após as eleições. Agora já não há tanto. Os adversários sabem que são parte de um sistema de governação (situação e oposição) e que se não funcionarem o País estará desgovernado. Por isso, têm mesmo que entender-se, apesar das diferenças.

7. Sendo Cabo Verde uma ex-colónia portuguesa, acha que a politica portuguesa se reflete na política cabo-verdiana?... Em que aspeto?

R7. Sim, reflecte-se muito. Primeiro, porque temos o mesmo sistema constitucional, o mesmo tipo de instituições, portanto temos os mesmos problemas do sistema politico. Depois, copiamos as atitudes, posturas e modas, tendo para isso os telejornais da noite que são vistos pelos actores políticos dos dois países. Não falemos de ter a mesma língua, a herança cultural comum… enfim tudo conflui. Até a economia de C Verde está muito ligada à portuguesa (Portugal é o primeiro parceiro comercial, a fonte da maior remessa financeira da emigração, o maior formador dos nossos quadros, etc, etc). A ligação existe por todos os lados, é quase umbilical e, tão cedo não mudará, por mais que haja quem não goste muito… a realidade existe mesmo!

8. Em 2011 aconteceram as eleições presidências, em que PAICV foi derrotado pelo MPD. Ficou satisfeito com a vitória de Carlos Fonseca?

R8. As eleições presidenciais não são eleições de partidos, mas sim de cidadãos. Essa noção ainda não é muito clara para os cabo-verdianos, pois os partidos envolvem-se nas campanhas presidenciais e sem eles, parece difícil que um cidadão se faça eleger sem o apoio dos partidos. Está ainda por acontecer essa situação. Desta vez esteve prestes a acontecer, o cidadão Aristides Lima, com apoio de gente de vários partidos esteve perto de atingir os 30%, mas foi “ensanduichado” entre os dois grandes partidos e não passou à segunda volta, quando todas as sondagens lhe davam vantagem até 10 dias antes das eleições. O meu candidato não foi eleito e é claro que teria preferido que fosse. Mas uma vez eleito, Jorge Carlos Fonseca é o Presidente de todos os cabo-verdianos e ele tem o meu respeito e toda a consideração que lhe é devida. Para mais é um intelectual reconhecido, com uma boa reputação como especialista em Direito Penal, e uma pessoa séria.

9. As eleições presidências foram marcadas por alguma turbulência. Porquê?

R9. Todas as eleições em Cabo Verde são muito disputadas. O País tem uma pequena população, as vitórias são sempre por um número de votos relativamente pequeno, logo renhidamente disputados, até ao último minuto. Pela primeira vez, o partido que tem maioria no parlamento não conseguiu que o seu candidato fosse o mais votado para PR. As acusações aconteceram dentro do partido da maioria que esteve dividido entre duas candidaturas: a direcção e uma parte do partido apoiou o candidato Manuel Inocêncio Sousa, as bases desse mesmo partido apoiaram o outro militante, Aristides Lima. Foi muito…. “animado”.

10. Considera que o Governo cabo-verdiano contribui, de alguma forma, na formação dos estudantes/imigrantes que frequentam Cursos Superiores?

R10. Penso que sim, pois o acesso às universidades portuguesas (corredor livre para as universidades públicas e algumas facilidades para as privadas) resulta de acordo entre os dois governos. A entrada em Portugal, a isenção de pagamentos pela autorização de permanência, o acesso ao Sistema nacional de Saúde, tudo resulta de entendimentos entre os dois governos. Uma parte dos estudantes são bolseiros do Estado português,(por acordo com Cabo Verde) outra parte bolseiros directamente do Tesouro cabo-verdiano. Na verdade, a grande fatia da cooperação portuguesa com o Governo de Cabo Verde vai para a formação de quadros.

11. Cabo Verde é reconhecido a nível mundial como um país pacífico. Considera que este facto nos identifica?

R11. Sim, continuamos a ser um País tranquilo, na maior parte das ilhas a “calmaria” até desanima quem não esteja habituado. Nas principais cidades apareceram mais recentemente os fenómenos típicos da vida urbana: a degradação das condições de vida das periferias urbanas, criminalidade conexa e importação de códigos de comportamento mais violento. Um facto relevante é a realidade de nos encontrarmos (mais recentemente) na rota de grande tráfico de drogas entre a América do Sul e a Europa. Isso trouxe a criminalidade transnacional, mais complexa e o tráfico de armas, o que constitui um combate que é levado muito a sério pelas autoridades. Mas a maior parte das ilhas e lugares, a vida continua tranquila e calma em Cabo Verde, como antigamente. Assim o tempo livre é dedicado à musica, à religião e ao contacto com o ambiente (e também a uma pinguinha de grogue)

12. Mas, todos os dias a criminalidade aumenta no nosso País. Quais são as medidas que o Governo tem tomado para debelar contra o aumento da criminalidade?

R12. A grande criminalidade teve uma resposta à altura. O Governo conseguiu negociar acordos de cooperação policial e de segurança com a Espanha e o Reino Unido, os dois principais destinos da droga que passa pela nossa região CV-África Ocidental. Organizou também uma Conferência internacional com apoio das Nações Unidas e fez adoptar a “Declaração da Praia” (Outubro 2008), envolvendo todos os países da África Ocidental no combate ao tráfico. Equipou-se a Polícia Judiciária com recursos humanos treinados e meios de combate, foi criado o SIR (serviços de inteligência), e instalaram-se equipamentos nos portos e aeroportos, e missões de vigilância marítima. Entre 2003 e 2011, as apreensões de droga aumentaram mais de 50 vezes, o que é um bom sinal. Antes de 2003, os traficantes tinham mãos livres, pois o País não tinha meios de combate e de apreensão da droga. Contrariamente, ao que se pensa esta rota africana de tráfico de drogas funciona há uns 20 anos. A pequena criminalidade urbana diminuiu em relação há algum tempo atrás, mas ainda continua um problema. Um problema do nosso sistema de justiça (numa transição dolorosa, em que a polícia já não tem os poderes que tinha antigamente, por mudança constitucional, mas as magistraturas e os tribunais ainda não têm capacidade de lidar com esta realidade, de modo eficaz). O Governo pode reforçar o trabalho de prevenção, é o que lhe está ao alcance, pois não pode mandar nos tribunais e nas magistraturas, que agora têm um “governo” próprio e autónomo, nesta recente reforma da justiça.

13. Como perspectiva o futuro do nosso País?

R13. Cabo Verde tem todas as condições para continuar a progredir, como fez nos últimos 35 anos. Melhorou muito a situação do País e a sua capacidade de governar-se, tem mais possibilidades hoje. É um facto inegável, quem viu CV em 1975 nunca imaginou que pudesse mudar tanto e rapidamente. Em toda a África somos 2 países a ter mudado de estatuto de PMA, desde a independência: Botswana primeiro, e Cabo Verde, depois. É verdade que a actual crise lança incerteza para todos os países, desde a Alemanha ao super-poderoso Estados Unidos. Cabo Verde, como país pequeno e dependente de relações com os outros, também está banhado pela incerteza no futuro. Mas para já, os dados do curto prazo continuam estáveis: o turismo continua a crescer, sobretudo na Boavista (taxas acima dos 24% ao ano), no Sal em recuperação nítida, as exportações de peixe (enlatado em S.Vicente para Espanha) estão em crescimento; os serviços de apoio à navegação aérea também crescem (taxas acima dos 12%). O pacote de obras públicas (estradas, portos e barragens) está em curso, até 2014-15. Não cresce a nível desejado a construção civil, e o emprego. Os salários também vão estar congelados em 2012, o que não agrada muito. Mas como diz o ditado “quando o vizinho está atrapalhado com o fogo, é melhor você por as barbas de molho”, não vá o fogo chegar até aqui. Espera-se um crescimento da economia na ordem dos 6% em 2012, o que não sendo uma “coisa do outro mundo”, é um crescimento interessante em tempos de crise. Para já, não há razões para alarme, podemos continuar a confiar num futuro de crescimento. A ver vamos.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Estou na Política apenas com Objetivo de Servir a População..."


João Domingos Correia, Presidente de Munícipio do Tarrafal á dois mandatos, considerado homem povo, pelos tarrafalenses, pela sua genuidade e a forma como ouve os cidadãos.





1. Porque razão decidiu entrar na vida política atíva, partidária?

Resposta: não sei se posso dizer que entrei na vida política activa, embora tenha praticamente 12 anos nisso. O que lhe posso dizer é que entrei na política para servir Tarrafal. Nesta óptica não posso dizer que estou na vida política activa, mas sim parcialmente, apenas para servir Tarrafal. Devo, contudo, reconhecer que fui um pouco além, pois, neste momento sou também presidente da Associação dos Municípios de Santiago, de modo que já estou a servir não só Tarrafal, mas toda a ilha de Santiago.


2. Em termos políticos quais são as suas qualidades? O que é necessário para ser um bom politico?


Tenho dificuldades em responder a esta questão porque as qualidades que pensamos ter podem não coincidir com as que realmente temos. Pois, estas últimas são aquelas que demostramos no quotidiano e que as pessoas avaliam. Vou tentar dar uma resposta aproximada à questão colocada, dizendo aquilo que faço que não sei se sao qualidades ou defeitos. Resumidamente, estou na política apenas com o objectivo de servir a população indiferentemente da sua crença religiosa, da sua filiação partidária e da sua condição social. Neste sentido esforço-me para estar o mais próximo possível das pessoas, sempre disponível para as ouvir e partilhar os problemas e as soluções. Considero-me apenas um servidor publico que deve fazer o melhor uso possìvel dos recursos conseguidos pela Câmara Municipal, tentando dar grande atenção às famílias mais desfavorecidas.


3. Em todo o mundo, é voz corrente que a política e a corrupção andam juntos na vida política. Como explica este fenómeno?


Penso que a corrupção é um mal social que tende a ganhar terreno em toda a esfera da vida social. Por conseguinte, ninguém está imune a esse mal. A política parece ser efectivamente uma área propensa à corrupção porque é a esfera da vida onde sao geridos os recursos de toda uma comunidade por um grupo reduzido de pessoas. Quanto mais esse grupo reduzido de pessoas for dominada por pessoas propensas a riqueza material, maior será o risco de corrupção. A educação é fundamental no combate à corrupção. Considero que quem tiver uma boa educação não terá a tentação de se apoderar sozinho dos bens ou patrimónios de todos. "Mais vale sermos todos felizes do que ser eu sozinho feliz". Pois, este tipo de felicidade, isto é, uma felicidade individual, é, por mim, sempre efémera e não passa de uma miragem.


4. A população tem dos políticos a ideia de que prometem uma coisa e fazem outra. Na sua óptica, porquê?


Tem toda razão. Pois, nas campanhas políticas faz-se um conjunto de promessas que são intenções formuladas com base nos pressupostos que se prevê estarem reunidos ao longo do mandato. Acontece que a vida social é dinámica e que as coisas estão em constante mutação. Para que não haja muito desvio entre as intenções que sustentam as propostas eleitorais e aquilo que será posto na prática ao longo do mandato, é preciso que o político tenha uma aceitável experiência da vida, tenha um nível razoável de conhecimento na área social e económica para poder fazer propostas razoáveis e realistas. Quanto menos for a experiência na vida, quanto mais baixo for o nível de conhecimento que tem da realidade social e económica, maior será o risco de fazer propostas irrealistas e irrealizáveis.


5. Para um candidato, a um qualquer cargo, o que vale numa eleição?


Respondo por mim próprio. Para mim vale a pena fazer propostas sérias e pensar que está apenas disponível a servir a população.


6. Os políticos durante as campanhas digladiam-se, insultam-se e não têm respeito pelos adversários. Como é que depois se ultrapassam essas fracturas?


Não me alinho nesse tipo de políticas. Nunca tive tal pratica e, por conseguinte, nunca passei por essa experiência. Tenho respeitado os meus adversários políticos e tenho tido facilidades de relacionamento com todos e a todo tempo.


7. Sendo Cabo Verde uma ex-colónia portuguesa, acha que a politica portuguesa se reflete na política caboverdeana? Em que aspeto?


Por ter sido uma colónia portuguesa, nem tanto. Embora se saiba que toda a nossa organização administrativa, judicial, politica e economica, vai beber à experiencia e à legislação portuguesa. O reflexo da politica portuguesa em Cabo Verde deve-se ao facto de mantermos uma grande relação económica, administrativa e política com Portugal. Ademais que se trata de uma relação quase que de sentido único e de dependência. Basta saber que em 2010, 70% de ajuda ao desenvolvimento de que Cabo Verde beneficiou, veio de Portugal!


8. Em 2011 aconteceram as eleições presidências, em que PAICV foi derrotado pelo MPD. Ficou satisfeito com a vitória de Carlos Fonseca?


Em princípio e constitucionalmente as eleições presidenciais não sao partidárias. Mas ,em Cabo Verde, os partidos acabam por se envolver tanto nessas campanhas que o peso partidário acaba por ser determinante no resultado das eleições presidenciais. Respondendo à sua questão, devo dizer que não tenho e nem devo procurar satisfacação pessoal com o resultado das eleições, quaisquer que elas sejam. A eleição de Jorge Carlos Fonseca para o cargo do Presidente da Republica, à partida, é o prenúncio de maior equilibrio e mais transparência na gestao política do país. Neste sentido dou-me por satisfeito. Mas, acima de tudo, e o que importa e que deve dar satisfacção a mim e a todos nós, é o resultado daquilo que vier a ser o exercício do mandato. Se o actual Presidente tiver um bom desempenho ao longo do mandato e se a população sentir um efeito positivo da magistratura, eu estarei satisfeito.


9. As eleições presidências foram marcadas por alguma turbulência. Porquê?


Não tenho a mesma percepção. A não ser que se considere a luta pelo poder no seio de PAICV, como sendo um problema do País. Efectivamente, está-se perante um partido que tudo vale para alcançar o poder. Neste sentido, criaram vários factos e artefactos com vista a deturpar o resultado, mais uma vez, destas últimas eleições.


10. Considera que o Governo caboverdeano contribui, de alguma forma, na formação dos estudantes/imigrantes que frequentam Cursos Superiores?


Em princípio é uma pergunta que deve ser colocada ao Governo. Devo, contudo, dizer que tenho a minha percepção, mas nada mais do que isso. Creio ser irrefutável que o Governo tenha contribuído na formação de quadros superiores. Se esta contribuição é ou não satisfactória, já é outra questão.


11. Cabo Verde é reconhecido a nível mundial como um país pacífico. Considera que este facto nos identifica?


Acho que sim e a nossa história fala por si. Ao longo dos 36 anos após a nossa independência, não tivemos qualquer levantamento militar ou popular que tenha peturbado a ordem constitucional e a paz interna.


12. Mas, todos os dias a criminalidade aumenta no nosso País. Quais são as medidas que o Governo tem tomado para debelar contra o aumento da criminalidade?


A questão da criminalidade diz respeito à segurança interna. Esta questão tem ganhado terreno nos últimos tempos. O governo tem tomado algumas medidas, mas muito mais repressivas do que sociais. Acredito que uma parte significativa da criminalidade tem, por detrás, problemas de precariedade da situação socioeconomica das famílias. Nesta óptica, urge investir muito mais na área social, proporcionando maiores oportunidades às crianças descendentes das famílias menos favorecidas.


13. Tarrafal é um dos municípios de Cabo Verde dotado de boas características turísticas. Até que ponto o turismo esta ser explorado?


Tarrafal tem efectivamente grandes potencialidade turísticas. Entretanto, deve-se reconhecer que esta potencialidade está subaproveitada, de modo que tem tido um papel reduzido na melhoria da condição de vida das pessoas. Vários sao os problemas que condicionaram o aproveitamento desse potencial turístico. De entre eles se destacam: a qualidade da estrada que liga Tarrafal aos restantes municípios da ilha, particularmente à Cidade da Praia que é onde se encontram o Porto e o Aeroporto; o facto de Tarrafal não ter sido contemplado pelo Governo com nenhuma Zona de Desenvolvimento Turístico Integrado, não podendo, assim, atrair investimentos. Devo, contudo frisar que ultimamente vem aparecendo alguns investimentos nesta área que darão um grande contributo no desenvolvimento local.


14. Tem vindo a sofrer criticado ao longo do seu mandato por parte da oposição, até foi acusado de inércia, de não explorar os pontos fortes do Tarrafal. Perante estas criticas, quais foram as suas atitudes ou respostas a dita acusação?


Sao criticas infundadas. Nas áreas da competência da Câmara Municipal temos tido melhor desempenho que todos os municípios do país. Abastecimento de água, saneamento, urbanismo. Inclusivamente, fizemos intervenções em áreas como electrificacao, com avultados investimentos, áreas onde as competências são do Governo. Dados estatísticos confirmam que quando fomos eleitos ,pela primeira vez, Tarrafal estava no grupo dos três concelhos mais pobres do país. Neste momento, Tarrafal está a meio da Tabela. Ultrpassou onze municípios. Tarrafal é o concelho com melhores indicadores de abastecimento de água e muito acima da média no país, liderando os nove municípios da ilha de Santiago, graças aos investimentos que fizemos nos últimos anos! Tarrafal é o primeiro Município da ilha de Santiago a ter uma cobertura em rede de energia Electrica, cobrindo todas as zonas do concelho, graças ao esforço conjugado e dos investimentos realizados pela Câmara Municipal e pelo Governo! Tarrafal é, neste momento, a Cidade mais organizada, mais limpa e com maiores e mais ruas calcetadas da ilha da Santiago!

Entretanto, devo dizer que em tudo isso, o que me dá maior satisfacção é o facto de termos feito um grande investimento na área social, fazendo com que muitos jovens oriundos de famílias desfavorecidas, hoje sejam quadros formados a darem as respectivas contribuições no desenvolvimento do Tarrafal, em particular, e do País, de um modo geral.


15. Como perspectiva o futuro do nosso País, e mais concretamente do Tarrafal?


Acredito que Cabo Verde, de um modo geral, e Tarrafal, em particular, tem recursos e competências suficientes para aproveitarem as oportunidades que a economia mundial nos oferece e promover um desenvolvimento equilibrado e sustentável, desde que não precipitemos e não confundamos crescimento económico com desenvolvimento económico.